Havia um clima de guerra fria no ar, um desconhecimento político mundial, um ventinho "of change" que começava a soprar, mas a americanada ainda vendia suas idéias de uma Rússia devoradora de criancinhas. Sibéria, Moscou, CIA e KGB eram assuntos recorrentes e, foi nesse clima, que eu li pela primeira vez duas revistas que me marcaram.

A primeira é uma unanimidade, difícil comentar sobre ela algo que não seja repetido. Ela é sim um divisor de águas, é a história mais comentada de Batman de todos os tempos e possivelmente a melhor do herói jamais escrita. A narrativa inovadora de Frank Miller realmente foi o vento de mudança da época. O clima semi-gótico, que comparava Batman a um vampiro sem que isso fosse jamais dito e a estrutura textual dinâmica que mesclava percepção pessoal, pensamentos fugidios e a própria narrativa marcaram a época. Acho que em toda a indústria mundial de quadrinhos deve ter havido um "Opa, cara, dá pra fazer isso em quadrinhos?". Miller trouxe uma linguagem cinematográfica aos quadrinhos, uma linguagem onde o dinamismo foi a menor das revoluções. A conversa íntima de Batman com ele mesmo, os diálogos que previam uma interação com o leitor além do simples diálogo explicativo que era moda na época. Faço observação sobre isso aqui: odeio diálogos cuja única função é explicar o que o autor foi incapaz de explicar de maneira coerente, do estilo: "O quê? Você está tirando sua arma da cintura para atirar em mim, só porque eu consegui há sete anos impedir que você tivesse sucesso naquele assalto às doze joalherias, pelo qual você levou dez anos planejando e contratou ajuda e por isso se endividou com a máfia, tendo que vender seus serviços por 5 anos para eles?". Miller abriu mão da explicação, da revisão dos acontecimentos e tornou a coisa muito mais linear e veloz. O leitor realmente passa rápido onde a ação é rápida e reduz a leitura onde precisa de suspense. Ele tem uma diagramação planejada, jamais vi em outro autor/artista essa capacidade de mostrar o tempo, câmera lenta, agilidade ou lentidão nos quadros. Ele sabe fazer o leitor saltar pro quadro seguinte, como sabe fazê-lo demorar-se em um mesmo quadro.

Fora isso, ele mostra o homem vencendo o super. O planejamento lógico e a preparação de anos do Batman contra o magnífico Kal-el. Batman jamais o venceria com tamanha verossimilhança quanto o fez pelas mãos de Frank Miller.
Miller também dissocia Bruce Waine do Batman, como psiquês distintas. Não é o Bruce Waine que se veste de Batman, mas o Batman se veste de Bruce. Batman se torna em suas mãos um ser mítico, quase espiritual, onde, tal qual um Hércules, até mesmo os fatores mais aleatórios do universo parecem estar direcionados a fazê-lo ter sucesso em seus feitos. "Velho sortudo" - Como ele mesmo diz no texto de Miller.
Obviamente, mas ainda assim tenho que dizer, estou falando de "O Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller.
A segunda me marcou por um motivo especial. Além de muito bem escrita, apesar de pouca inovação textual (ou nenhuma, a gente diz pouca pra ser educado com o autor), Jim Starlin, nome que você pelo menos já ouviu falar, se lê quadrinhos. Conseguiu me trazer uma emoção que experimentei poucas vezes (outra foi a "Última caçada de Kraven"). Eu senti medo pelo herói. O Autor levou a história tão bem, conduziu o leitor com tamanha maestria que cada passo do Batman me fazia pensar: "Agora sim vai dar gaio". Senti medo de ver o Batman morto, senti apreensão em desejar ver o KGBesta derrotad... droga entreguei a revista, ok... é "Batman - as dez noites da besta".

Batman finalmente enfrentava (na minha visão da época) um vilão que poderia derrotá-lo. Havia um quê de medo no próprio Batman. A cena que eu colei aí do lado é uma das que demonstram isso. Batman com medo de verdade. No texto, Batman chama o inimigo de A BESTA, apenas para exemplificar um dos pontos que fazem o leitor perceber que o Herói sente-se enfrentando um desafio além de sua capacidade. E Tudo isso, Starlin consegue sem o clima noturno e pesado de Batman. Os desenhos de outro Jim, só que este de sobrenome Aparo, são leves, de traços definidos. As cores são vibrantes, não soturnas. Para se ter uma idéia, o Batman é azulão... espero que a imagem esteja aparecendo aí ao lado, fica mais fácil perceber. Todo o suspense vem do texto, da carga dos diálogos e dos pensamentos pessimistas de Batman. O fim é muito bom, Batman prende o KGBesta, e este, após muitos confrontos com o Batman, chama o cara "pra mão" mais uma vez. Batman, lá da porta diz em outras palavras "Eu não sou nem louco, cara" e fecha a porta.

Até hije, só não entendo porque o KGBesta cortou a própria mão, um dos Jims não deixou claro que essa seria sua única opção. Batman poderia ter prendido suas mãos com uma corrente, mas uma corda? Por que ele não cortou a corda? Foi muito exagerado, ou um tremendo mal entendido. Tenho procurado a edição original e parece que teve uma reedição que eu perdi. Como não achei minha "Dez noites" (nem meu encadernado de "Dark Knigth", malditos não devolvedores de revistas), vou tentar comprar de novo e estudar isso com mais calma. Afinal se não recuperar os meus, tenho que tê-los, por que ambas são sim OBRIGATÓRIAS.