sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Bom Moço


Morre Steve Rogers o bom moço da marvel.
Contrapondo com o bom moço da DC, o primeiro não voava nem erguia toneladas como se fossem gramas e como se bem sabe hoje, não era mais rápido que uma bala.
vestido com o uniforme de capitão, estirou-se no chão, banhado em sangue e perdeu a vida de uma maneira jamais esperada para um herói.
Enquanto o bom moço de capa enfrentou o maior inimigo de todos os tempos, foi confrontado com um oponente desconhecido, como que criado unicamente para fazê-lo tombar e caiu em uma batalha olímpica, o de escudo sequer tinha tal proteção para desviar uma bala covarde.
O Bom moço de cabelos negros sequer sendo humano, representava a providência divina, uma mão poderosa estendida aos fracos seres sob seus pés. Não que ele o fizesse com desdêm, ao contrário era solícito e dedicado. O Loiro representava um ideal, uma força pessoal e humana capaz de sobrepujar inimigos mais fortes e poderosos com determinação e coragem.
O deus tombou após a destruição de metade de sua cidade, o homem também. Tombou ali, após vencer um inimigo mais poderoso, quando notou que sua guerra se tornara pessoal, ele lutava por Steve Rogers e não pelo Capitão América.
Quando Steve Rogers morre, assassinado, quem jaz no chão é um homem loiro de olhos claros que representa uma nação que é desconhecida do mundo, temida por ele e que o teme de volta. Que aprendeu a se isolar atrás de um escudo, que aprendeu a vencer seus problemas com guerra, não é a toa que o Steve Rogers é um Capitão das forças armadas.
mas este ideal morreu, ou provou ser morto.
Como o profeta gentileza, Brubaker nos lembra que a guerra gera guerra. Rogers caiu morto, mas o capitão América não. Ele morreu antes, morreu quando mais uma vez decidiu vencer argumentos pela guerra, quando resolveu contrapor o que parecia mais justo com força bélica, quando aliciou garotos, tal qual o exército americano para lutar por sua causa, os converteu às suas crenças e os permitiu guerrear nos campos. Talvez eu veja demais, mas a mensagem do roteirista me parece tão óbvia, os boatos que ouvi de um sucessor faz isso ainda mais gritante.
Quando me lembro de todas as vezes em que Stark estendeu a mão para Steve Rogers durante a saga que precedeu sua morte, percebo no momento da (linda) cena cinematográfica da fuga do Capitão através dos corredores do porta aviões da Shield. Uma das balas o atingiu e ele sequer notou, um projétil que matou o ideal, matou o sonho americano e só deixou vivo um homem destituído de visão, que pensa como um Bush, que decidiu trazer a guerra dizendo que queria a paz.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

jim lee e a bauhaus (ou um exercício de ironia textual)


Eu tenho uma certa admiração por Jim Lee, mas não pelos motivos mais comuns. ele me lembra uma revolução nas artes e faz alusão a um momento especial do design mundial.

Entre a primeira e a segunda guerra, já quase na segunda, fundou-se a escola alemã de oficios e artes, ou algo assim, chamada BAUHAUS (que quer dizer casa de construção, ou algo assim, de novo). Apesar de ser o nome da escola, Bauhaus simboliza quadse um movimento dentro do design, alguns inclusive dizem que foi o verdadeiro berço da disciplina em âmbito mundial. Foi ali que se discutiu pela primeira vez o papel da arte no mundo fora do escopo subjetivo da mensagem poética. Foi lá que finalmente se associou o design como uma ferramenta para tranformar a qualidade artística do artesão em processo fabril de produção.
Foi o primeiro lugar onde se falou em agregar valor estético, mas também foi ali que se discutiu o significado da arte em escala industrial. A união destas visões faz da bauhaus mais que um edifício e uma instituição, na minha visão é um movimento, uma revolução na maneira de se ver o design. Fi quando se aprendeu a aplicar arte na indústria.

Aí está Jim Lee, para mim, longe de ser um gênio criativo e inovador, ele simplesmente é um excelente desenhista que aprendeu a industrializar seu processo. Influencia mór dos jovens talentos de hoje, Jim trabalha pelo mais produtivo. Desenvolveu formulas estéticas funcionais, métodos de sombreamento e aplicação muscular simples e plasticamente interessantes.
As críticas principais ao seu trabalho é o seu maior talento. Rostos sempre iguais, aquele olho escurecido, traços semelhantes onde raramente se nota uma etnia e formas identicas (O personagem só muda de rosto, ou de cabelo, ou de COR de cabelo).
Mas isso é o que ele oferece de melhor, é a industrialização da arte. É a Bauhaus ao inverso, e aplicar indústria na arte.
Ele mostra com clareza os valores dos nossos tempos, imediatismo, rapidez de informação e velocidade de produção. O que Jim Lee diz inconscientemente é: Vai chegar um momento em que não interessa mais quem desenha. No estilo Maurício de Souza. Não faz diferença quem vai fazer o trabalho porque os resultados serão os mesmos.

E sabe o que é pior, ou melhor, ou indiferente? É que isso vende em escala progressiva. Quanto mais igual(?), mais retorna as vendas... isso foi o estopim da famigerada era Image, não só a questão conceitual do bombadaço, mas a padronização textual, estética e gráfica.
No desenho ao lado, a figura do superman está maior, repare, mas imagine uma troca de uniformes, existiria diferença além de uma possível cor de cabelo?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Batman em duas visões

Havia um clima de guerra fria no ar, um desconhecimento político mundial, um ventinho "of change" que começava a soprar, mas a americanada ainda vendia suas idéias de uma Rússia devoradora de criancinhas. Sibéria, Moscou, CIA e KGB eram assuntos recorrentes e, foi nesse clima, que eu li pela primeira vez duas revistas que me marcaram.

A primeira é uma unanimidade, difícil comentar sobre ela algo que não seja repetido. Ela é sim um divisor de águas, é a história mais comentada de Batman de todos os tempos e possivelmente a melhor do herói jamais escrita. A narrativa inovadora de Frank Miller realmente foi o vento de mudança da época. O clima semi-gótico, que comparava Batman a um vampiro sem que isso fosse jamais dito e a estrutura textual dinâmica que mesclava percepção pessoal, pensamentos fugidios e a própria narrativa marcaram a época. Acho que em toda a indústria mundial de quadrinhos deve ter havido um "Opa, cara, dá pra fazer isso em quadrinhos?". Miller trouxe uma linguagem cinematográfica aos quadrinhos, uma linguagem onde o dinamismo foi a menor das revoluções. A conversa íntima de Batman com ele mesmo, os diálogos que previam uma interação com o leitor além do simples diálogo explicativo que era moda na época. Faço observação sobre isso aqui: odeio diálogos cuja única função é explicar o que o autor foi incapaz de explicar de maneira coerente, do estilo: "O quê? Você está tirando sua arma da cintura para atirar em mim, só porque eu consegui há sete anos impedir que você tivesse sucesso naquele assalto às doze joalherias, pelo qual você levou dez anos planejando e contratou ajuda e por isso se endividou com a máfia, tendo que vender seus serviços por 5 anos para eles?". Miller abriu mão da explicação, da revisão dos acontecimentos e tornou a coisa muito mais linear e veloz. O leitor realmente passa rápido onde a ação é rápida e reduz a leitura onde precisa de suspense. Ele tem uma diagramação planejada, jamais vi em outro autor/artista essa capacidade de mostrar o tempo, câmera lenta, agilidade ou lentidão nos quadros. Ele sabe fazer o leitor saltar pro quadro seguinte, como sabe fazê-lo demorar-se em um mesmo quadro.

Fora isso, ele mostra o homem vencendo o super. O planejamento lógico e a preparação de anos do Batman contra o magnífico Kal-el. Batman jamais o venceria com tamanha verossimilhança quanto o fez pelas mãos de Frank Miller.
Miller também dissocia Bruce Waine do Batman, como psiquês distintas. Não é o Bruce Waine que se veste de Batman, mas o Batman se veste de Bruce. Batman se torna em suas mãos um ser mítico, quase espiritual, onde, tal qual um Hércules, até mesmo os fatores mais aleatórios do universo parecem estar direcionados a fazê-lo ter sucesso em seus feitos. "Velho sortudo" - Como ele mesmo diz no texto de Miller.
Obviamente, mas ainda assim tenho que dizer, estou falando de "O Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller.
A segunda me marcou por um motivo especial. Além de muito bem escrita, apesar de pouca inovação textual (ou nenhuma, a gente diz pouca pra ser educado com o autor), Jim Starlin, nome que você pelo menos já ouviu falar, se lê quadrinhos. Conseguiu me trazer uma emoção que experimentei poucas vezes (outra foi a "Última caçada de Kraven"). Eu senti medo pelo herói. O Autor levou a história tão bem, conduziu o leitor com tamanha maestria que cada passo do Batman me fazia pensar: "Agora sim vai dar gaio". Senti medo de ver o Batman morto, senti apreensão em desejar ver o KGBesta derrotad... droga entreguei a revista, ok... é "Batman - as dez noites da besta".
Batman finalmente enfrentava (na minha visão da época) um vilão que poderia derrotá-lo. Havia um quê de medo no próprio Batman. A cena que eu colei aí do lado é uma das que demonstram isso. Batman com medo de verdade. No texto, Batman chama o inimigo de A BESTA, apenas para exemplificar um dos pontos que fazem o leitor perceber que o Herói sente-se enfrentando um desafio além de sua capacidade. E Tudo isso, Starlin consegue sem o clima noturno e pesado de Batman. Os desenhos de outro Jim, só que este de sobrenome Aparo, são leves, de traços definidos. As cores são vibrantes, não soturnas. Para se ter uma idéia, o Batman é azulão... espero que a imagem esteja aparecendo aí ao lado, fica mais fácil perceber. Todo o suspense vem do texto, da carga dos diálogos e dos pensamentos pessimistas de Batman. O fim é muito bom, Batman prende o KGBesta, e este, após muitos confrontos com o Batman, chama o cara "pra mão" mais uma vez. Batman, lá da porta diz em outras palavras "Eu não sou nem louco, cara" e fecha a porta.
Até hije, só não entendo porque o KGBesta cortou a própria mão, um dos Jims não deixou claro que essa seria sua única opção. Batman poderia ter prendido suas mãos com uma corrente, mas uma corda? Por que ele não cortou a corda? Foi muito exagerado, ou um tremendo mal entendido. Tenho procurado a edição original e parece que teve uma reedição que eu perdi. Como não achei minha "Dez noites" (nem meu encadernado de "Dark Knigth", malditos não devolvedores de revistas), vou tentar comprar de novo e estudar isso com mais calma. Afinal se não recuperar os meus, tenho que tê-los, por que ambas são sim OBRIGATÓRIAS.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um Novo ânimo


Enquanto leio o "Almanaque dos Quadrinhos", livro documentário que usa um modelo que virou fórmula na Ediouro, vou sendo lembrado de por que eu realmente gosto de quadrinhos. Não é porque é arte ou não, ou porque é mídia ou não, ou por ser político ou não. É simplesmente por ser o meio mais simples de estar em contato com a cultura, a contra-cultura, o pop e o subversivo ao mesmo tempo. Enquanto elemento de comunicação, o quadrinho permite tanto a leitura objetiva quanto o exercício semiótico dos signos pessoais. Enquanto arte, ele exibe a qualidade pessoal e traços inovadores, contemporâneos, mas também agrega o valor primário do design, que é fazer a ponte entre a arte e a indústria. É arte, mas é arte industrial... traduzi.
Quadrinho agrega.
Essa reunião de idéias opostas é o que eu mais curto. A capacidade de reinvenção, de modernização e de inovação, mantendo ícones e símbolos, perpetuando uma idéia clássica e adaptando à indústria um tipo de comunicação que é quase pessoal.
Como em um teste psicológico, autores e artistas expõem seus valores de maneira que possam ser criticados por outros artistas e escritores. Há um ciclo de informações, consertos e remendos para que a última palavra seja soberana.
Este livro, que trata de história, crítica artística e apontamentos importantes sobre os grandes momentos da arte, foi escrito (ou co-escrito) por um dos nomes que aprendi a respeitar nos quadrinhos nacionais, Carlos Patati, e é obrigatório, senão necessário, para quem pensa em quadrinhos para algo além de ler durante a viagem do ônibus.